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Pensar o comunismo, o socialismo, hoje PDF Imprimir E-mail

Nesta edição publicamos a primeira parte de uma ousada e significativa empreitada teórica: a que visa contribuir para a atualização do projeto socialista para o século XXI. Nas próximas edições colocaremos à disposição dos leitores a continuação desta “obra coletiva” sobre a crucial questão que é a de saber aonde queremos chegar.

Somos militantes que publicamos A Contre-Courant, Carré Rouge, L’Émancipation sociale, ou ligados ao sítio e revista À l’Encontre da Suiça e decidimos unir nossas forças para levar adiante um trabalho de caráter teórico e político sobre a atualidade do comunismo (ou, se alguns preferem, do socialismo, que é seu sinônimo em seu mais forte e íntegro sentido). Decidimos também estreitar contatos com aquelas e aqueles que perseguem um objetivo análogo, propondo-lhes trabalhar junto ou mantendo intercâmbios regulares. Neste texto propomo-nos a explicar o que nos conduziu a tal iniciativa, sublinhando as imensas dificuldades que implica e tratamos de esboçar uma primeira tentativa de ordenar o terreno.

A compreensão comum que nos une é a idéia de que o horizonte decisivo do compromisso político (que ilumina todas as facetas da atividade militante) é o da emancipação social, sinônimo de emancipação humana. Compreendemos tal emancipação como auto-emancipação coletiva que se baseia na auto-atividade e na auto-organização em todas as suas formas e seu objetivo é a construção de uma sociedade mundial constituída de povos que não mais conhecerão a divisão em classes e que terão desmantelado ou destruído o Estado – o mesmo Estado que tiveram que enfrentar os oprimidos no séc. XIX, que encontramos sob as formas mais terríveis ainda no séc. XX, o mesmo Estado a que os povos devem enfrentar hoje em condições orwelianas, infinitamente agravadas. Nestas condições, a emancipação do proletariado não pode ser senão uma auto-emancipação. Na medida em que é “uma tarefa dos próprios trabalhadores”, por eles conquistada, cria em seu próprio movimento as condições para a emancipação do conjunto da humanidade.

O objetivo da emancipação social, assim entendida, foi compartilhado por todas as correntes que juntas formaram o movimento operário no séc. XIX. Para além de suas divergências e depois de suas divisões tal objetivo foi o horizonte comum das e dos militantes que uniram suas forças para fundar a Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT). Mais tarde, sendo uns membros da segunda internacional, de diferentes grupos libertários os outros, seguiram tendo o mesmo objetivo, a manter seus olhos voltados e a fixar sua vontade no mesmo horizonte. Separados por uma interpretação antagônica de acontecimentos cruciais, uma separação agravada em alguns momentos por alguns enfrentamentos políticos diretos severos, alguns dos herdeiros das duas correntes tentaram, repetidamente, a partir dos fundamentos compartilhados de seu compromisso, construir a base de uma construção política comum, especialmente nos sindicatos.

Hoje, a concepção da emancipação social que constitui o horizonte do compromisso político retrocedeu dramaticamente exatamente no meio em que nasceu e que fez sua durante um longo período: o movimento operário. Mantém-se subjacente no compromisso de muitos dos participantes nos Fóruns Sociais Mundiais que vem de países nos quais os camponeses e oprimidos organizaram-se dentro ou fora de sindicatos operários tradicionais. Mas as aspirações fixadas no horizonte de emancipação social foram marginalizadas e frustradas. A linguagem do “realismo”, ou seja, da adaptação ao capitalismo, prevaleceu. Nos países capitalistas imperialistas o objetivo da emancipação social mantém-se escrito no programa político de certas organizações, de certos grupos políticos ou de certas organizações ou de certos coletivos que pertencem às correntes fundamentais do pensamento emancipador. Mas apenas de maneira formal e esvaziada. Ora, nem a emancipação social nem o comunismo como objetivo último do engajamento podem ser mumificados ou acaparados por vanguardas autoproclamadas. É necessário dar-lhes vida, alimentar-lhes permanentemente, em um processo de interação com as expressões da auto-atividade dos explorados, que se renovam sempre; esta auto-atividade modifica as condições do combate mudando também os seres humanos.

Atualmente existe uma necessidade imperiosa de demonstrar a pertinência destes objetivos e de reformulá-los. A experiência histórica das tentativas concretas chamadas de transição ao socialismo deve ser analisada a fundo (a análise foi apenas esboçada). Por sermos herdeiros, distantes mas herdeiros mesmo assim, dos que tiveram que enfrentar a repressão estalinista, os pelotões de execução e o Gulag, podemos apreciar plenamente esta imperiosa necessidade. Mas esta exigência concerne tanto o presente como o futuro. Este trabalho é imposto pelos novos desafios (subestimados e/ou não analisados pelas forças revolucionárias) que lança à humanidade o regime de propriedade privada dos meios de produção e a acumulação para o lucro. Sem ser pensadas em termos atuais, a idéia da emancipação social e a perspectiva do comunismo tornam-se posições da ordem das convicções privadas ou inclusive em uma crença expressa por militantes na intimidade dos pequenos círculos e/ou na esfera política pública.

No momento em que o séc. XXI começa de maneira dramática, em que alguns de seus traços catastróficos podem ser idenficados com elevado grau de certeza, queremos participar, junto a todas e todos aqueles cujo compromisso político se funda sobre esta base em um esforço coletivo para repensar o comunismo hoje e mostrar sua atualidade e sua necessidade. Tal objetivo merece que coloquemos entre parêntesis (ou que aceitemos, pelo menos, que passem a um segundo plano) as divergências que possam existir entre aquelas e aqueles que querem associar-se a esta tarefa para levá-la adiante sem pretensões mas com a consciência das necessidades que impõe a situação.

A atividade militante cotidiana, concreta, que cada qual desenvolve não pode senão enriquecer os intercâmbios e as elaborações. No entanto, é urgente dedicar uma parte de seu tempo e de sua energia a esta tarefa político-teórica de maneira tal a voltar a dar aos que militam desde muitos anos a perspectiva indispensável do comunismo e, sobretudo, poder transmiti-la às novas gerações. As lutas “cotidianas” a partir do momento em que começam a adquirir certa importância (e hoje todas eles tendem a adquirir importância!) levam em si uma “aspiração a outra sociedade”, a um “para além” do sistema capitalista; elas se esforçam mais ou menos conscientemente para “lançar pontes” em direção a esta outra sociedade. Corresponde a amputá-las e talvez mesmo a desarmá-las, não trabalhar para definir este ponto em direção ao qual deve ser lançada esta “ponte”.

As formas atuais da alternativa “socialismo ou barbárie”

A alternativa “socialismo ou barbárie” foi formulada há quase um século. O grito de alarme lançado por Rosa Luxemburgo e outros revolucionários traduzia uma modificação radical do sentido do combate pela emancipação social, que se transformava em um combate para opor-se a terríveis perigos assim como para materializar as possibilidades de progresso na história. A “construção do socialismo” e a imagem de uma “humanidade que avança para o progresso” forjada pelo estalinismo e seus sub-produtos, impediram que este grito de alarme fosse compreendido plenamente. Outros se esforçaram em dissociar a compreensão de Auschwitz da história do capitalismo e de suas convulsões. Outros dedicaram-se a tratar de nos converter de que a superioridade militar e nuclear dos Estados Unidos constituía a garantia da “liberdade” e da “democracia”. De nossa parte devemos devolver todo o sentido a este grito de “socialismo ou barbárie”, hoje mais do que nunca fundamentado, quando depois de décadas de crise crônica da economia e da sociedade capitalista em escala internacional, as ameaças se aceleram e se diversificam.

O capital logrou criar as condições de uma terrível competição entre os países, mas também no seio de cada economia nacional, entre os proletários do mesmo país “pelo trabalho”, pela venda da força de trabalho. Esta competição é o vetor de uma verdadeira pandemia mortífera que se abate sobre os proletários, sobre “o mundo do trabalho”, como lhe chamaram e que se estende a todos aqueles que são golpeados pela pauperização e pela desafiliação social para satisfazer a sede inesgotável de valorização do capital. “A união dos trabalhadores”, em todos os níveis é o que está em jogo, é o eixo central da atividade militante. Somente a unidade poderá fazer retroceder o perigo, em seguida, soluções mais duradouras; e podemos pensar que esta unidade poderia ser construída a partir da convergência na auto-atividade que os despossuídos e os explorados desenvolvem em cada um de seus respectivos países, na realidade, frequentemente em suas respectivas vilas, cidades, bairros ou regiões.

O abismo entre as cúpulas das classes proprietárias e dominantes, assim como entre as “elites políticas” que elas produzem e a maioria da população tornou-se incomensurável. O parisitismo do capital financeiro encontra uma de suas expressões nas formas e conteúdos da hiper-privatização em vias de extensão acelerada da riqueza produzida pelo trabalho mas também das riquezas naturais de todo tipo.

(Continua na próxima edição)

Tradução feita a partir do original em francês publicado no sítio de Carré Rouge (www.carre-rouge.org) e da versão em espanhol publicada por Correspondencia de Prensa (tradução de Ruben Navarro).

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