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Aldo Andrés Casas – “Terricídio ou Socialismo” PDF Imprimir E-mail
A problemática ecológica tem merecido, já há alguns anos, um tratamento sistemático nos ambientes acadêmicos, em múltiplos fóruns e instituições internacionais, além de um espaço crescente nos meios de comunicação de massa. De fato, desde o momento mesmo em que foi reconhecida (ou seja, quando não foi mais possível ocultá-la) a questão ecológica passou a ser colossalmente mistificada.

Quanto mais se falava do alcance presente e das projeções futuras do desastre ecológico, mais se confundiram os termos do problema e se ocultou sua verdadeira natureza. Levantou-se uma muralha ideológica para se ocultar que este crime contra a Terra ou, mais precisamente, contra a natureza humanizada, está orientado por uma racionalidade muito particular, a racionalidade que é característica da ordem do capital e que, na busca de maximizar a mais-valia, intensifica a exploração sem limites dos recursos naturais e dos seres humanos. E como se isso não fosse suficiente a nova administração Bush se mostra disposta a acelerar a corrida em direção ao abismo, em nome de Deus, claro. Frente a tudo isso, nós, socialistas, temos algo a dizer?

A crise ambiental e o risco ecológico no mundo

Para ter presente as dimensões do problema e sem nenhuma pretensão de exaustividade convém começar por recordar alguns indicadores da crise ambiental:

Desmatamento de Florestas tropicais e temperadas: Taxas anuais de desmatamento de 11,3 milhões de hectares entre 1981-85 e estimativa de uma quantidade ainda maior nos últimos anos; 50 milhões de hectares afetados apenas na Europa por contaminação aérea e chuva ácida.

Reservas de água: Dezenas de milhares de rios, lagos continentais e estuários biologicamente mortos por causa de diversos poluidores, sobretudo nos países industrializados.

Costas e mares: Contaminação em diferentes graus por emissão de esgoto (metade da população humana vive em áreas costeiras), substâncias químicas, pesticidas, plásticos, petróleo e dejetos nucleares.

Água: a) Uso agrícola – 60 milhões de hectares (24%) da agricultura de irrigação no mundo foram afetados por salinização ou contaminação por superexploração dos aquíferos; b) Uso urbano – escassez atual ou potencial em diversos pontos do planeta (especialmente no Norte e no Sul da África, no Golfo Pérsico, Austrália, e porções da Ìndia e América do Norte).

Erosão de Solos. Estima-se em uns 24 bilhões de toneladas a quantidade de solo que se perde anualmente por causa da erosão (equivalentes a 2,5cm de profundidade de uma área de 61 milhões de hectares). Estima-se que se perdem anualmente 9 milhões de toneladas de grãos por erosão de terras agrícolas.

Desertificação. Ao redor de 6 milhões de hectares ao ano se transformam em áreas improdutivas de tipo desertificado como consequência da erosão eólica e hidráulica, a salinização dos solos, a super-utilização pastoril, o desmatamento e a superexploração das águas subterrâneas.

Perda da diversidade biológica. Ainda que não existam cálculos confiáveis sobre a perda de espécies de seres vivos, estima-se que poderiam extinguir-se até 25% do total das espécies até o ano 2020, principalmente por conta da destruição massiva de habitats naturais.

Contaminação do ar. As emissões de poluentes industriais (principalmente óxidos de enxofre e nitrogênio) seguem um curso ascendente desde 1950.

Destruição da camada de ozônio: A destruição da camada de ozônio (que protege dos raios ultravioletas) pela emissão anual de um milhão de toneladas de clorofluorcarbonos (de ampla utilização industrial) foi detectado principalmente na Antártica.

Tal fenômeno provoca câncer de pele e cataratas nos seres humanos e pode causar danos aos cultivos e às cadeias vitais nos mares.

Aquecimento global: Como conseqüência de diversas atividades humanas incrementa-se continuamente a presença de diversos gases na atmosfera: dióxido de carbono (25% mais), óxido nitroso (19%), metano (100%) e outros gases como os clorofluorcarbonos (porcentagens calculadas em relação ao período pré-industrial). Anualmente, depositam-se na atmosfera 5,66 bilhões de toneladas de carbono pela queima de combustíveis fósseis além de outros 2 bilhões pelo desmatamento tropical. Dado que estes gases permitem passar a radiação solar mas impedem que se dissipe um vez refletida e em forma de calor, a temperatura do planeta é hoje 5 ou 6 graus mais alta que há um século e estima-se uma subida média entre os 2,5 e os 5,5 nos próximos cem anos. Isto pode provocar uma subida do nível do mar por derretimento das massas polares assim como mudanças climáticas capazes de afetar a todos os seres vivos, incluindo os seres humanos. (1)

Ecologia e Mistificação

Como pode chegar a humanidade a esta situação? Como evitar agora um desastre catastrófico? Já não é um segredo que os muito e poderosos interesses que provocam e se beneficiam da depredação dos recursos naturais recorrem a mentiras, operações obscuras e mesmo à mais despudorada violência para ocultar suas atividades e responsabilidades. De tempos em tempos algumas de tais ações fracassam e o escândalo chega aos meios de comunicação de massa: há sobre isso livros de ficção, filmes e séries televisivas. Mais complexo é colocar em evidência que os mesmos grupos econômicos e instituições governamentais que atuam como acabamos de assinalar operam também de uma forma distinta e aparentemente contraditória: como decididos impulsionadores de um certo tipo de ambientalismo que, apresentando-se sob diversas formas, coincide em apresentar os problemas ambientais como a conseqüência mais ou menos inevitável da “civilização”, um subproduto do “progresso”. Adotando este ponto de partida e independentemente das reformas ou paliativos a que se proponham, chega-se definitivamente à justificativa dos custos ecológicos dos modelos de crescimento econômicos existentes, argumentando que a alternativa seria renunciar a todo progresso. E contribuem de fato a afiançar semelhante raciocínio os ecologistas aparentemente radicais que apregoam a utopia reacionária de um “regresso à vida natural”, impensável sem um traumático retrocesso histórico e social. Existe uma cínica combinação de ambas tessituras quando se impõem regulamentações tendentes a lograr “economias limpas” nos centros imperialistas enquanto se transportam as produções poluentes e as lixeiras industriais aos países atrasados. São os governos e estados com maiores responsabilidades na degradação ambiental do planeta os que, enquanto ocupam fóruns ou instituições internacionais, criticam a incapacidade do “Terceiro Mundo” para defender o meio ambiente e pressionam para colocar as “reservas naturais” de maior importância sob a “proteção internacional” ...das potências imperialistas! Coincidimos então com Renan Vega Cantor quando escreve:

É importante realçar que em razão dos modismos e dos intentos do capitalismo em apropriar-se e desvirtuar a ecologia, geraram-se diversos tipos de ecologismo de direita. Assim, se pode falar de eco-racismo que, nos EUA deixa de maneira criminosa os dejetos tóxicos nas áreas em que vivem os negros e os latinos; de eco-imperialismo, que transfere aos países do Sul os resíduos radioativos, desenvolve um intercâmbio desigual de tipo ecológico e se apropria da biodiversidade tropical; de eco-negócios, impulsionados por grandes empresas que se disfarçam de verde para camuflar seu verdadeiro caráter depredador do meio ambiente e para aumentar as vendas e os negócios das mercadorias ecológicas; de eco-tecnocracia, pertencente à folha de pagamento de certas multinacionais, de certas ONGs ou de ministérios verdes, em que pese apresentar-se a si mesma como a “consciência ecológica” do mundo, na verdade representa os interesses do capital internacional. [...] Todas estas variantes do ambientalismo são uma típica manifestação do “ambientalismo dos ricos”, ou a utopia verde e reacionária do capital internacional e de certas ONGs do Norte que pretendem assumir a defesa do meio ambiente mas para converter o que resta da natureza em uma simples mercadoria. (2)

Escrevendo neste momento resulta imperioso agregar uma advertência suplementar: a política dos EUA complica ainda mais as coisas porque a aliança de fundamentalistas do mercado e fundamentalistas bíblicos que (com Bush na Casa Branca e o controle do Congresso) conduzem a principal potência mundial, somam a “racionalidade instrumental” da tecno ciência capitalista à aberta irracionalidade da direita cristã, os “guerreiros de Deus”. Recentemente, o jornalista norte-americano Glenn Scherer advertiu em seu artigo “O Caminho do Apocalipse Ambiental” que, para milhões de fundamentalistas cristãos a destruição ambiental não é preocupante porque “Deus proverá”, isto quando não saúdam como sinal do esperado e próximo apocalipse a partir do qual os “verdadeiros fiéis” se elevarão ao céu:

Por que preocupar-se com a Terra se as secas, dilúvios, fome e pestes trazidas pelo desastre ecológico são os sinais do Apocalipse anunciados na Bíblia? Por que preocupar-se com a mudança de clima global quando você e os seus serão resgatados pela elevação aos céus? Por que preocupar-se com passar do petróleo à energia solar quando o mesmo Deus que fez o milagre da multiplicação dos peixes pode prover uns bilhões de barris com uma palavra? Porque estas pessoas acreditam que até que Cristo retorne Deus proverá o que é necessário. Em um de seus textos o livro de história, adotado para o ensino secundário. “A providencial História Americana”, afirma: “O não religioso ou o socialista tem uma visão de limitados recursos e vê o mundo como um pastel [...] que deve ser fatiado para que todos possam obter um pedaço”, ao contrário “o cristão sabe que o potencial de Deus é ilimitado e que não há nenhuma escassez de recursos na terra de Deus [...] enquanto muitos não religiosos vêem o mundo como superpovoado, o cristão sabe que Deus fez a terra suficientemente grande e com recursos suficientes para acomodar todas as pessoas”. (3)


O fanatismo religioso “por baixo” encontra correspondência “por cima” na perigosa política do governo dos EUA. O responsável pela proteção do Meio Ambiente declarou que a reeleição do presidente Bush corresponde a um aval de continuidade de sua política ambiental: isto se traduz na intenção de reescrever as Atas sobre o Ar Limpo, sobre a Àgua Limpa e sobre a proteção das espécies ameaçadas, assim como a Ata da política nacional de Meio Ambiente que exige que o governo estabeleça antecipadamente se determinadas iniciativas podem ser danosas para os recursos naturais. Pretendem, além disso, rebaixar os limites de poluição para o ozônio, eliminar as inspeções e normas de poluição para os automóveis, veículos esportivos, utilitários e grandes caminhões. Querem uma nova lei de auditoria internacional que permita às corporações manter determinadas informações sobre problemas ambientais como secretas ao público, abandonar as pesquisas de novas fontes de energia não poluentes e atenuar os decretos de controle das companhias de carvão. Em lugar de castigar a contaminação a Agência de Proteção Ambiental subsidia a seus amigos da Câmara da Indústria Química para que paguem famílias pobres para que continuem usando em suas casas pesticidas que produzem danos neurológicos nas crianças: em lugar de proibir seu uso o governo e a indústria planejam oferecer a estas famílias dinheiro, seguros de saúde e roupa para que seus filhos sirvam como cobaia em um estudo sanitário. Quando se multiplicam os alertas das instituições científicas de primeiro nível sobre a elevação do nível do mar e suas conseqüências o governo norte-americano se baseia em dados apresentados por Exxon Mobil para afirmar a mudança de clima é um mito e que os níveis do mar não são crescentes e que os cientistas que alertam quanto à possível catástrofe estão equivocados (4). Se esta é a política ambiental de Bush para seu próprio país podemos então imaginar o que se pode esperar no resto do mundo, o que destaca, uma vez mais, quanto é urgente encontrar uma saída para este labirinto. Em primeiro lugar, clarificando as relações entre o homem e a natureza.

O enfoque marxista e sua fecundidade

Neste ponto segue sendo útil referir-se a Marx e Engels, não para buscar em velhos textos soluções para uma problemática nova, mas sim para refutar o mito negativo que apresenta o marxismo (colocando-o junto à “tradição neoclássica da economia”) como parte das escolas de pensamento que ignoraram o tema completamente (5). Enquanto a verdade é que, pelo contrário, alguns pontos de vista de Marx no que se refere à questão das relações entre o homem e a natureza conservam vigência e uma riqueza que não é de todo aproveitada. Já em 1844 o jovem Marx escrevia:

...o homem (como o animal) vive da natureza inorgânica; e tanto mais universal que o animal é o homem quanto o é o âmbito da natureza inorgânica, da que vive o homem [...]. A universalidade do homem aparece, na prática, precisamente na universalidade que faz de toda a natureza seu corpo inorgânico tanto na medida em que esta: 1) é um meio de vida imediato, quanto na medida em que 2) é a matéria, o objeto e a ferramenta de sua atividade vital. A natureza é o corpo inorgânico do homem [...]. O homem vive da natureza, isto significa que a natureza é seu corpo, com o qual deve permanecer em um processo contínuo afim de não perecer. (6)


Na relação entre o homem é seu corpo inorgânico há a mediação do trabalho que lhe permite viver e modificar conscientemente (ao menos em parte) o mundo em que vive. Mediante “a criação de um mundo objetivo através da prática, a elaboração da natureza inorgânica” os homens se afirmam como tais e “através de tal elaboração a natureza aparece como a obra e a realidade do homem” (7). Para Marx a humanidade se separa e se distingue dos restantes seres vivos porque é capaz de viver neste metabolismo característico com a natureza. Mantém com esta um contato obrigatório para existir e obter seus meios de vida, mas também deve transformá-la e subordiná-la a seus propósitos. Nesta questão, Engels expressava também as opiniões de Marx quando, muitos anos depois, escreveu que “o animal não faz mais que usar seu ambiente e provoca mudanças nele, nada mais que com sua presença; com suas mudanças, o homem o faz servir a seus fins, o domina”(8). Ainda que a palavra soe odiosa e muitos a critiquem outros, como Reiner Grudman, pelo contrário, consideram que um aporte fundamental é a indicação desta dupla relação segundo a qual o homem é capaz de viver ao mesmo tempo na e relativamente contra a natureza, junto com a compreensão de que esta relação com a natureza é dinâmica e muda, complexifica-se com a incorporação de uma mediação crescentemente sofisticada, tal como o desenvolvimento de ferramentas e teconologias, assim como das sucessivas formas de organização social da produção. Sem renegar suas preocupações juvenis, o Marx maduro presta grande atenção ao processo de “transformação do processo simples de trabalho em um processo científico, que põe a seu serviço as forças naturais e, desta maneira, as obriga a operar a serviço das necessidades humanas” (9). Que esta concepção não é algo acessório, mas uma perspectiva estratégica, fica muito claro quando apresenta de forma precisa a possibilidade que abre o desenvolvimento da produção social:

O trabalhador [...] inserta o processo natural, a que transforma em industrial, como meio entre si mesmo e a natureza inorgânica, a qual domina [...]. Nesta transformação, o que aparece como pilar fundamental da produção e da riqueza não é nem o trabalho imediato executado pelo homem nem o tempo em que este trabalha, mas sim a apropriação de sua própria força produtiva geral, sua compreensão da natureza e seu domínio da mesma, graças a sua existência como corpo social. [...] O trabalho excedente da massa deixou de ser condição para o desenvolvimento da riqueza social, assim como o não-trabalho de uns poucos deixou de ser para o desenvolvimento das potencialidades gerais do intelecto humano. Com ele desponta a produção fundada no valor de câmbio e ao processo de produção material imediata é retirada a forma da necessidade premente e do antagonismo. [...] As forças produtivas e as relações sociais – umas e outras diferentes aspectos do indivíduo social – aparecem ao capital unicamente como meios e não são para ele mais que meios para produzir fundando-se em sua mesquinha base. In fact, constituem as condições materiais para mandar esta base pelos ares” (10)

A objeção dos que sustentam que falar da dominação da natureza corresponde a uma capitulação aos valores da “sociedade industrial” parece desmesurado senão mesmo injustificado porque, para Marx e Engels o conceito de dominação assumia o sentido de em relação aos interesses e necessidades gerais dos homens (incluindo as gerações futuras) e, sobretudo, com o projeto de uma sociedade que permitisse a plena autorealização humana. Repetindo o que disse Engels:

En una palabra, el animal no hace más que usar su ambiente, y provoca cambios en él, nada más que con su presencia; con sus cambios, el hombre lo hace servir a sus fines, lo domina. Esta es la diferencia final, esencial, entre el hombre y otros animales, y, una vez más, es el trabajo el que la produce.
Pero no nos jactemos demasiado de nuestras victorias humanas sobre ¬la naturaleza. Pues por cada una de esas victorias, ésta se venga de nosotros. Cada triunfo, es verdad, produce ante todo los resultados que esperamos, pero en segundo y tercer lugar provoca efectos distintos, impre¬vistos, que muy a menudo anulan el primero. Pueblos que en Mesopo¬tamia, Grecia, Asia Menor y otros lugares destruyeron los bosques para obtener tierras cultivables, no pensaban siquiera que, al eliminar, junto con los bosques, los centros colectores y receptáculos de humedad sentaban las bases para el actual estado de desolación de esos países […] Y así, a cada paso que damos se nos recuerda que en modo alguno gober¬narnos la naturaleza como un conquistador a un pueblo extranjero, como alguien que se encuentra fuera de la naturaleza, sino que nosotros, seres de carne, hueso y cerebro, pertenecemos a la naturaleza, y existimos en su seno, y que todo nuestro dominio de ella consiste en el hecho de que poseemos, sobre las demás criaturas, la ventaja de aprender sus leyes y aplicarlas en forma correcta. (11)


Significativamente, Engels conclui advertindo: “Mas esta regulação exige algo mais que um simples conhecimento. Exige uma renovação total em nosso modo de produção existente até agora e ao mesmo tempo, uma revolução em toda nossa ordem contemporânea” (12). A questão é que, um século e meio depois de escritas estas palavras esta revolução total está por fazer e assistimos então ao fato de que, sob a ordem do capital, não cresce o domínio mas o descontrole dos homens sobre a sociedade e sobre as formas que assume o metabolismo ou o intercâmbio da sociedade com a natureza.

Isto nos leva a destacar um outro aporte fundamental de Marx e Engels, que é o que lança luz sobre o caráter histórico e contraditório das distintas formas sociais, que alcança sua máxima expressão nas contradições do capital e do trabalho assalariado, das quais nasce a rica temática da exploração, da alienação e da possibilidade da superação revolucionária das mesmas. Umas poucas citações servem para indicar os alcances deste enfoque. Nos já mencionados Manuscritos de 1844, antes que o autor desvelasse o tema da mais-valia (o que já terá feito em 1857) e inclusive sem realizar ainda a distinção conceitual entre trabalho e força de trabalho, o jovem Marx analisou as consequencias do submetimento do trabalhador ao capital:

es justamente a través de la elaboración del mundo objetivo que el hombre se prueba verdaderamente en cuanto ser genérico. […] A través de dicha elaboración, la naturaleza aparece como la obra y la realidad del hombre. […] Por ende, en la medida en que el trabajo alienado despoja al hombre del objeto de su producción, lo despoja de su vida genérica, su verdadera objetividad genérica, y transforma su preeminencia por sobre el animal en la desventaja de que le es arrebatada su vida inorgánica, la naturaleza. (13)

E o tema reaparece, muitos anos depois n`O Capital:

Al crecer de un modo incesante el predominio de la población urbana, aglutinada por ella en grandes centros, la producción capitalista acumula, de una parte, la fuerza histórica motriz de la sociedad, mientras que de otra parte per¬turba el metabolismo entre el hombre y la tierra; es decir, el retorno a la tierra de los elementos de ésta consumidos por el hombre en forma de alimento y de vestido, que constituye la condición natural eterna sobre que descansa la fecundidad permanente del suelo […] Al igual que en la industria urbana, en la moderna agricul¬tura la intensificación de la fuerza productiva y la más rápida moviliza¬ción del trabajo se consiguen a costa de devastar y agotar la fuerza de trabajo del obrero. Además, todo progreso, realizado en la agricultura capitalista, no es solamente un progreso en el arte de esquilmar al obrero, sino también en el arte de esquilmar la tierra, y cada paso que se da en la intensificación de su fertilidad dentro de un período de tiempo determinado, es a la vez un paso dado en el agotamiento de las fuentes peren¬nes que alimentan dicha fertilidad. (14)


Atualidade e urgência do socialismo

Frente aos efeitos destrutivos do crescimento econômico com os atuais moldes e sobretudo ante à letal combinação de eco-business, tecno-ciência e irracionalismo bíblico que desde os Estados Unidos se impõe ao mundo, não resultam adequadas nem a resignação, nem a nostalgia de uma suposta “idade dourada” na longínqua pré-história humana. Por difícil que seja, trata-se sobretudo de insistir sobre a necessidade de fortalecer a luta da humanidade em sua verdadeira história, a que poderá começar quando homens e mulheres, abolindo a exploração e a opressão, abram caminho em direção ao domínio consciente de sua vida social e da natureza. Por isso reivindicamos a fecundidade do aporte marxiano.

Mas é imperioso dar um passo mais: reconhecer que sem dúvida estamos diante de uma problemática complexa: os problemas ecológicos são muitos e diversos e defini-los é uma parte importante do esforço tendente a propôr soluções corretas e efetivas. Segundo a sistematização proposta por alguns especialistas, nos enfrentamos com: poluição ou contaminação do ar, água e solos; esgotamento de fontes de água; proliferação de tóxicos químicos; multiplicação de catástrofes ambientais; erosão de solos, desertificação de vastas regiões do planeta; acidificação; utilização de novos produtos químicos de efeitos não previstos; desenvolvimentos biotecnológicos de efeitos imprevisíveis. Uma classificação ligeiramente diferente assinala: todas as formas de poluição; o esgotamento dos recursos naturais, renováveis ou não; extinção de ecosistemas ou espécies biológicas; extensão das superfícies desertificadas; explosão demográfica e impacto ambiental das grandes concentrações urbanas. Em todo caso, trata-se de problemas que, sem deixar de estar relacionados, são distintos e aparecem combinando-se entre si de diversas e dinâmicas formas e afetando profundamente tanto as condições da vida rural como a dos que se situam nas grandes cidades, seja nas nações mais miseráveis do Sul como nas sociedades mais avançadas do Norte.

Advertir a complexidade previne contra simplificações arbitrárias que derivam na busca de soluções enfocando uma só causa além de contribuir para desenvolver um enfoque realista e concreto dos perigos ecológicos atendendo a suas diversas razões: 1) consequencias previstas de determinadas ações ou opções econômicas e produtivas; 2) repercussões danosas de certas tecnologias e o amplo espectro dos acidentes ou catástrofes industriais; 3) efeitos colaterais ou sub-produtos do crescimento econômico; 4) razões ou fenômenos estranhos ou independentes das ações humanas e, sobretudo 5) um processo econômico caracterizado pela assimetria entre os custos físicos de reposição dos recursos naturais e seus derivados e a valorização monetária de que são objeto, assim como os mecanismos que presidem a geração e a distribuição de poder de compra sobre o mundo, condicionando os processos de valorização que são fonte de deterioraração ambiental, de desigualdade social e de desequilíbrios econômico-territoriais (15)

Tudo isso para destacar que enfrentamos desenvolvimentos quantitativos e qualitativos novos aos quais devemos procurar respostas originais. Isto é assim, em primeiro lugar, porque os desequilíbrios, desastres e risco ecológico adquiriram uma magnitude tão imprevista e ameaçadora como a velocidade com que se agravam e porque o capitalismo contemporâneo apresenta os problemas de maneira distinta. O filósofo italiano Giuseppe Prestipino assinala:

O velho critério que considerava o desenvolvimento das forças produtivas como presumível primeiro motor da mudança social – e, portanto, como algo cedo ou tarde incompatível com uma sociedade capitalista – perde força explicativa. Hoje as forças produtivas se desenvolvem de modo impetuoso sob o impulso da ciência-técnica e semelhante desenvolvimente – entendido sobretudo como inovação tecnológica continuamente orientada ao incessante crescimento quantitativo e qualitativo de produtos – está em sintonia com as relações sociais capitalistas (e associadas aos mecanismos espontâneos do “livre” mercado). [...] Marx se equivocou quando acreditou que uma sociedade socialista poderia surgir de um (liberado) protagonismo objetivo das novas forças produtivas e de sua oferta de bens em crescente abundância. Não previu que uma relativa super-abudãncia do consumo pudesse ser cúmplice da mesma economia de mercado, nem que, nesta, mesmo a “escassez moderada”, pudesse causar incuráveis desastres ambientais além de sociais (16).

De outro lado, as ilusões segundo as quais o capitalismo, mesmo que a custa de injustiças, gerava riquezas que acabavam “por derrame” chegando aos mais despossuídos tornam-se cada vez mais difíceis de compatibilizar com o curso real do capitalismo financeiro de nossos dias:

O certo é que não observamos hoje uma “queda tendencial da taxa de lucro” em conseqüência do aumento do “capital constante”. Observamos sobretudo que, juntamente com um alto investimento de “intelecto geral” freia-se o ritmo de inovações da “nova economia” e pode inclusive insinuar-se uma queda tendencial da acumulação. Às altas taxas em alguns setores de ponta corresponde hoje uma tendencialmente reduzida da acumulação em geral, inclusive porque alguns custos do déficit energético ou das medidas para colocar remédio parcial, por exemplo, a contaminação, os aluviões, e os desequilíbrios climáticos cada vez mais frequentes já começam a pesar sobre o gasto público e, em menor medida, sobre as mesmas empresas privadas. Se o crescimento é aparente ou se diretamente perde inclusive a aparência convertendo-se em uma progressiva queda da riqueza global-real, a tão conhecida justificativa das crescentes desigualdades sociais que tem por base um crescimento compressivo dos bens a repartir (ainda que seja injustamente) entre todos os indivíduos, perde credibilidade, enquanto as razões do socialismo – enquanto razões tendencialmente igualitárias – deveriam avançar-se novamente contra os ideólogos mais triviais do neoliberalismo e refutando também aos teóricos mais sérios do liberalismo (por exemplo, J. Rawls) (17).

Outro aspecto da questão é que, ao buscar uma saída à catástrofe iminente ou, melhor dizendo, já em marcha, é preciso assumir a evidência incontestável de que as economias não capitalistas do mal chamado “socialismo real” também provocaram catástrofes ecológicas. Portanto, a assimilação crítica da experiência histórica marcada pela burocracia estalinista e pós-estalinista é necessária para contribuir ao desenho de um modelo de transição socialista cujas grandes linhas sejam radicalmente distintas tanto em suas formas políticas como nos processos produtivos e no conteúdo sócio-econômico. Longe de esconder ou minimizar a questão devemos ser, nós os socialistas, os que mais implacavelmente recordam que, naquelas experiências, os desastres ecológicos alcançaram um nível arrepiante precisamente porque ainda que fossem economias não-capitalistas reproduziram muitos dos piores vícios do sistema que supostamente viriam superar. Estes regimes não podiam assegurar a dominação do homem sobre a natureza porque neles não se logrou a libertação dos trabalhadores e sim os sujeitos a novos grilhões, mantendo a alienação do trabalho, esmagando-os sob o peso de uma brutal ditadura burocrática e adaptando-se ao marco geral do sistema mundial de estados presidido pela ordem do capital. Para desafiar tal ordem é preciso retomar e impulsionar uma crítica marxista do progresso que, ao mesmo tempo, se enfrente com as reacionárias posturas do pós-modernismo e as ideologias irracionais, como assinala Renán Vega Cantor. Ainda que o tema mereça um tratamento mais detido, podemos mencionar alguns de seus elementos:

- Crítica da conversão das forças produtivas em forças destrutivas;
- Crítica da ciência e da tecnologia por serem forças produtivas/destrutivas a serviço do capital
- Crítica à mercantilização de tudo o que existe, incluindo o corpo humano, o material genético e a natureza
- Crítica ao mercado e ao economicismo
- Crítica de caráter anticapitalista ao progresso

Tudo isso conduzindo a:

- A reinterpretação histórica do capitalismo a partir da resistência de distintas forças ao progresso destrutivo
- Uma reinterpretação das relações entre sociedade e natureza
- A revolução como um momento de ruptura que evite a catástrofe a que nos conduz o progresso tecnológico do capitalismo
- A diferenciação entre o progresso humano e moral e progresso econômico e/ou tecnológico (18)

Em síntese, é preciso ir muito além do que escreveram, em outros tempos e condições, os mais proeminentes socialistas, começando por Marx e Engels, sem esquecer que, também para esta renovação, cabe inspirar-se em suas idéias fundacionais que conservam luminosidade. Por exemplo, se se quer uma verdadeira revolução, uma genuína transição socialista em direção a uma sociedade emancipada, cabe recordar que “todas as revoluções anteriores deixaram intacto o modo de atividade e só trataram de lograr outra distribuição desta atividade, uma nova distribuição do trabalho entre outras pessoas” enquanto nós, os socialistas, nos dirigimos contra o modo anterior de atividade e compreendemos que para lográ-lo:

É necessária uma transformação em massa dos próprios homens, que somente poderá conseguir-se mediante um movimento prático, mediante uma revolução, e que, por conseguinte, a revolução não apenas é necessária porque a classe dominante não pode ser derrotada de outro modo, mas também porque unicamente por meio de uma revolução logrará a classe que derruba sair do lodo em que está imersa e tornar-se capaz de fundar a sociedade sobre novas bases (19)

Em nossos dias, muito mais que em qualquer outro momento, a luta teórica e prática contra o capitalismo deve ser travada e levada adiante em termos radicais. Contra o que muitos pensam o fracasso do mal chamado “socialismo real” deveria servir para sublinhar necessidade de levar a revolução até o fim. A experiência deixada pelo estalinismo (na ex-URSS mas também no conjunto do “campo socialista”) ensina que falar de socialismo enquanto se constrói um opressivo estado burocrático que mantém e imprime novas formas à exploração do trabalho assalariado, constitui uma aberração histórica, oposto aos objetivos emancipadores que estão na própria da base do movimento operário e socialista. Contra esta caricatura, já León Trotsky caracterizou em seu momento a transição socialista nestes termos: “No decorrer de um período de duração indefinida e de uma luta interna constante vão transformando-se todas as relações sociais. A sociedade sofre um processo de metamorfose”, motorizado pela luta política, ou seja, pelo “choque dos distintos grupos da sociedade em transformação” de modo tal que “as revoluções da economia, da técnica, da ciência, da família, dos costumes, se desenvolvem em uma complexa ação recíproca que não permitem à sociedade alcançar o equilíbrio. Nisto consiste o caráter permanente da revolução socialista como tal” (20). Precisamente, quando dizemos que devemos impulsionar uma revolução total não estamos sugerindo que tudo pode mudar em um instante, mas sim que desde seus primeiros passos a revolução penetre decididamente no terreno das condições concretas de produção e na administração da tecnologia, que também tem dimensão social e política. Isto é imprescindível para combater tudo o que tem efeitos negativos sobre o meio ambiente e os interesses humanos e para desenvolver de maneira criativa a democracia e a autonomia operária, possibilitando assim um crescente controle coletivo sobre as transformações na sociedade e na natureza.

O árduo trabalho de contrarrestar as arraigadas e continuamente renovadas ilusões procapitalistas e produtivistas terá maior efetividade se lograrmos arrancar, também pela raiz, a nefasta concepção do poder revolucionário como algo externo aos trabalhadores, como um rígido controle estatal “socialista”, erigido para lograr que os produtores se empenhem em superar o capitalismo produzindo mais do mesmo e em condições de trabalho similares. Com palavras e com fatos devemos mostrar que o caminho do socialismo não consiste em produzir mais mercadorias e inundar o mercado com qualquer tipo de produtos industriais, sim revolucionar a produção e o intercambio de bens e serviços socialmente necessários, colocar as forças produtivas a produzir de outra maneira e outras coisas ou, em outras palavras: mudar a vida da humanidade e salvar a natureza humanizada!

“Não queremos que o socialismo seja na América imitação e cópia. Queremos que seja criação heróica”, disse no século passado José Carlos Mariátegui. Com este espírito devemos hoje assumir a questão ecológica como questão de vida ou morte, da qual não se pode fugir nem postergar em nome de um futuro indeterminado. Como todo desafio, representa uma oportunidade: a de recuperar para o socialismo uma direção estratégica, política e também ética, colocando em evidência que o potencial emancipador do trabalho, como alternativa estrutural à “ordem do capital”, pode e deve dar o marco estratégico em que confluam todos os que querem por fim ao capitalismo imperialista e ao Terricídio, brigando pela ameaçada sobrevivência da humanidade.

Aldo Andrés Casas – membro do conselho de redação da revista Herramienta e colaborador de revistas estrangeiras como Carré rouge, A’lèncontre, Margem Esquerda y Venezuela Socialista. Secretário da Associação Antônio Gramsci e integrante do coletivo Cimientos.

Notas:

1 – Fonte: Víctor M. Toledo, “Modernidad y ecología. La nueva crisis planetaria”, Ecología Política, nº 3, 1992, págs. 21 22.
2- Renán Vega Cantor, El caos planetario. Ensayos marxistas sobre la miseria de la mundialización capitalista, Buenos Aires, Colección Herramienta, 1999, págs. 170-171.
3- Citado en “Ningún Mañana”, del periodista Bill Moyers (discurso al recibir el Premio del Ciudadano Medioambiental Global del Centro para la Salud y el Ambiente Global en la Escuela Médica de Harvard). artículo difundido en febrero de 2005 en ZNet.
4- Denuncias formuladas por Bill Moyers en la conferencia
5- Melnick, Sergio, “Principales escuelas, tendencias y corrientes”, en Estilos de desarrollo y medio ambiente en la América Latina, México, F.C.E., 1980, pag. 253.
6- Carlos Marx, Manuscritos Económico-Filosóficos de 1844, Buenos Aires, Colihue, pags. 111/112.
7- Idem, pag. 113.
8- Federico Engels, Dialéctica de la Naturaleza, Buenos Aires, Editorial Cartago, pag. 145.
9- C. Marx, Elementos fundamentales para la crítica de la economía política (Borrador) 1857-1858, Buenos Aires, 1972, Siglo XXI Argentina, vol. II, pag. 222.
10- Idem, págs. 228-229.
11- F. Engels, Ob. cit., págs.145-146.
12 - Idem, págs. 146-147.
13- C. Marx, Manuscritos..., págs. 113-114.
14 - C. Marx, El Capital, México, Fondo de Cultura Económica,1973, vol. I, págs. 422-423.
15- Ver sobre esto último J.M. Naredo y A. Valero (dirs.), Desarrollo económico y deterioro ecológico, Madrid, Fundación Argentaria-Visor, 1999.
16- Giuseppe Prestipino, Realismo e Utopia, Editori Riuniti, Roma, 2002, pag. 37.
17- Idem, pag. 47.
18 - R. Vega Cantor, “Elementos para una crítica marxista del progreso”, Ob. cit., págs. 97 a 166.
19- C. Marx y F. Engels, La ideología alemana, Buenos Aires, Ediciones Pueblos Unidos, 1975, págs. 81- 82.
20- León Trotsky, La revolución permanente, París, Ruedo Ibérico, 1972, pag. 19.

Notas sobre a tradução: Optou-se por manter sempre as referências bibliográficas do original em castelhano, sendo as traduções dos trechos reproduzidos de responsabilidade do tradutor do texto. No caso de algumas citações, optou-se pela manutenção da versão originalmente utilizada pelo autor (em castelhano).

Traduzido do original em castelhano por Elídio Marques

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